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Aniversário do Dr. Ulysses


Hoje o Dr. Ulysses Guimarães completaria 90 anos se estivesse vivo.
Um homem dos maiores nomes da história da política brasileira deixa cada vez mais saudades num congresso de Maluf, Clodovil, Frank Aguiar, Collor etc etc...

Texto de Lúcia Hippolito:
"Político que a mulher chama por um nome e o eleitorado por outro não tem futuro, me disse uma vez o doutor Ulysses. Doutor Ulysses, assim mesmo, sem necessidade de sobrenome. O Brasil inteiro o conhece assim. O mais completo dos políticos brasileiros dos últimos 50 anos.
Moderado por formação, radical quando necessário, irônico, charmoso, bom papo, dono de um finíssimo senso de humor, grande parlamentar. Formado na mais fina escola de políticos que o país já produziu, o velho PSD de Amaral Peixoto, Juscelino, Tancredo e Alkmin, o doutor Ulysses não acreditava em políticos improvisados. “No PSD todos eram do ramo”, dizia ele. O doutor Ulysses certamente era.
Deputado estadual em 1947, desde 1950 estava na Câmara dos Deputados – 42 anos ininterruptos. Em 1955 integrou a Ala Moça do PSD, junto com Renato Archer, João Pacheco e Chaves, Cid Carvalho, Nestor Jost, Leoberto Leal, José Joffily, Vieira de Melo e Oliveira Brito. Este grupo viabilizou a campanha e o governo de Juscelino, atuando dentro da Câmara dos Deputados. O doutor Ulysses presidiu a Câmara entre 1956 e 1957, contribuindo decisivamente para a aprovação do programa do governo JK. O doutor Ulysses já era moderno naquela época.
Concentrou sua atividade política na Câmara dos Deputados. Como ele mesmo dizia, casou-se com a Câmara. Ministro no primeiro gabinete parlamentarista, não acreditava no parlamentarismo. Só recentemente veio a se render ao sistema, tornando-se um entusiasta do governo de gabinete.
Durante os anos da ditadura, o doutor Ulysses falava por todos nós, exilados fora e dentro do país, amordaçados pela censura e pelo medo. Só ele não tinha medo. Enfrentou os tanques com a mesma dignidade com que enfrentou os cães da polícia:
- Respeitem o presidente da oposição!” Grande doutor Ulysses.
Em 74 aceitou a “anticandidatura” à presidência contra o candidato da ditadura, o general Geisel. Saiu pelo Brasil a pregar a redemocratização e a Constituinte. Com isso, impôs à ditadura uma fragorosa derrota, com a eleição de 16 senadores do MDB – um deles o atual presidente Itamar Franco. Foi o início do fim. Obra do doutor Ulysses.
Eu o conheci em Brasília, pelas mãos do senador Amaral Peixoto, quando preparava minha tese sobre o PSD. O doutor Ulysses me “adotou” e acompanhou todo o processo da tese, falou horas sobre o PSD, sobre a política, relembrou pessoas. Ficamos amigos desde então. Gostava de falar dos velhos tempos, mas não era saudosista. Acreditava no país, no fim da ditadura, num Brasil democrático.
Liderou a campanha pelas eleições diretas para presidente, lançando-se candidato numa entrevista em Nova York. Mas no final, o prêmio escapuliu-lhe das mãos; teve que ceder o lugar a Tancredo Neves, seu velho companheiro. “Muitas vezes o bom-bocado não é para quem o faz, mas para quem o come”, disse resignado o doutor Ulysses.
Na morte de Tancredo não faltou quem o tentasse seduzir para assumir a presidência da República. O doutor Ulysses não pestanejou e indicou o caminho constitucional: a posse do vice-presidente.
Perdeu uma presidência, mas ganhou duas. Presidente do PMDB, tornou-se presidente da Constituinte em 1987 e presidente da Câmara dos Deputados em 1988. Promulgou a nova Constituição, resultado de uma batalha na qual empenhou toda a sua experiência e vitalidade.
Levado a concorrer à presidência da República em 89 pelas indecisões de caciques paroquiais do PMDB, o doutor Ulysses perdeu as eleições. Vítima de ambições desmedidas – mas de fôlego curto dentro do próprio PMDB – o doutor Ulysses perdeu também a presidência do partido. Parecia caminhar para a aposentadoria, o “ócio com dignidade”.
Mas estourou a crise do governo Collor. E os políticos se dirigiram em romaria ao velho doutor Ulysses, que ressurgiu lépido, olhos azuis brilhando, e mais uma vez ajudou o país, aconselhando, ponderando, colocando ordem na casa. No meio do tumulto, enfrentou uma operação para extrair o apêndice, coisa complicada quando se tem 75 anos. Quando reapareceu, recuperado, diziam que ele não tinha extraído o apêndice, tinha trocado as pilhas, tão revigorado estava.
Conhecia o Congresso como ninguém. Na campanha das diretas, uma vez ele me disse que a emenda Dante de Oliveira não passaria na Câmara, porque conhecia a casa. Mas não desanimou. Sabia que a mobilização popular era importante para enterrar de vez o Colégio Eleitoral. Recentemente, me disse que só a mobilização das ruas conseguiria pressionar a Câmara a aprovar o afastamento de Collor. Estava certo mais uma vez.
Quando sentia crescer a radicalização na Câmara, o doutor Ulysses se tornava o mais radical de todos. Fixava, assim, os limites da radicalização. A última demonstração desta tática, muito típica de sua atuação, ocorreu quando sentiu que o plenário da Câmara queria desobedecer a uma eventual decisão do Supremo a favor do voto secreto na votação do impeachment de Collor. O doutor Ulysses lançou o brado de desobediência, transformou-se no mais radical dos radicais. Imediatamente os “bombeiros” se apresentaram, todos moderaram o tom, e o doutor Ulysses conseguiu acalmar os ânimos, fazendo com que todos confiassem no Supremo. Acertou de novo.
Respondeu aos insultos lançados por um presidente desesperado com uma frase curta e adequada: “Velho sim, velhaco não”. E foi, altaneiro, conduzir seu povo na batalha final pelo impeachment. Aplaudido de pé pelo plenário da Câmara – e pelo Brasil inteiro – ao proferir seu voto, o doutor Ulysses era a imagem da nação.
Almocei com ele em Brasília, uns domingos atrás. Fui tomar-lhe a bênção. Quando lhe agradeci por ter-se recuperado tão rápido da operação e ter regressado a tempo de comandar os acontecimentos, ele me olhou com aqueles olhos azuis irresistíveis e disse: “Milha filha” – sempre me chamou assim – “na minha idade, não tenho tempo para ficar doente. Ainda tenho muito o que fazer”.
E agora, o que faremos nós sem ele? Estamos diante da necessidade de prosseguir sem ter o doutor Ulysses para nos ajudar, nos mostrar o caminho, nos dar o exemplo. O doutor Ulysses foi um mágico. Fez amigos em todas as áreas, teve adversários cordiais, conspirou pela democracia, conversou até com poste para chegar a um entendimento a favor do Brasil. Hoje estamos órfãos e desnorteados. E o país está muito, mas muito menor.


Por Gustavo Noblat, filho de ricardo:

O helicóptero Esquilo, prefixo PT-HMK, afundou no mar 30 minutos depois de levantar vôo em Angra dos Reis, litoral do Rio de Janeiro. Era uma segunda-feira, feriado nacional, dia de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.
Transportava, além do piloto, os casais Ulysses e Ida Guimarães e Severo e Henriqueta Gomes. Eles voltavam a São Paulo depois de alguns dias de repouso na casa do amigo e empresário Luís Eduardo Guinle.
O acidente aconteceu no dia 12 de outubro de 1992. No dia seguinte, Ibsen Pinheiro, então presidente da Câmara dos Deputados, anunciou a morte de dr. Ulysses. Assim ele era chamado por todos, amigos e adversários.
Por algumas horas do dia 12, o Brasil manteve a esperança de encontrar Ulysses com vida. Em vão. Sequer o corpo dele foi encontrado
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